Acionista valorizado Imprimir E-mail

Os gestores de uma empresa não possuem, necessariamente, uma visão idêntica à dos acionistas. Uma decisão sobre a compra de novos equipamentos, por exemplo, pode beneficiar alguns setores do grupo e agradar a muitos funcionários, mas, em última instância, não representar nem um centavo a mais para o investidor. Para alinhar a visão dos gestores e dos acionistas, algumas companhias têm colocado como variável para análise de qualquer novo projeto a avaliação do retorno efetivo que ele oferecerá ao investidor.

No Brasil, quem lidera essa metodologia é a FGV Projetos, que há uma década elabora o ranking de Geração de Valor ao Acionista (GVA), mostrando as empresas que, por ganho de capital ou distribuição de dividendos, mais fizeram seus acionistas lucrar a cada ano. Nesses dez anos de estudo e consultoria, é possível avaliar que as empresas que adotam o método GVA na gestão são aquelas que, com mais freqüência, estão entre as que mais criam valor ao minoritário. O GVA deriva do cálculo de Retorno Total ao Acionista (TSR, na sigla em inglês), adotado por corretoras e fundos para avaliar a aplicação em ações. Ele leva em conta toda a receita do investidor com ganho de capital, dividendos ou mudanças societárias. O GVA é calculado a partir do TSR, comparado com o custo de capital da empresa.

No ano passado, figuraram entre as mais rentáveis principalmente as empresas ligadas à venda de commodities e siderúrgicas, que foram mais beneficiadas por ganhos de capital, explica o professor da FGV/EAESP Antonio Carlos Manfredini, que, ao lado do colega José Carlos Guimarães Alcântara, coordena o projeto GVA. "São essas que valorizaram mais por conta do ganho de capital." Mas, em anos, são as que mais se preocupam com o retorno do acionista que geram mais valor, diz. "É importante para o investidor saber que a lógica do mercado é o mesmo idioma do gestor. É necessário analisar se o ativo se valoriza sempre acima do custo de capital." Sempre lembrando que retorno passado não garante o futuro, diz.

A única empresa a figurar entre as cinco primeiras no ranking do GVA em todos os dez anos é a CSN, que também foi a líder do ano passado, no ranking obtido com exclusividade pelo Valor. A siderúrgica, que proporcionou valorização de 146% ao acionistas em 2007, adotou o método GVA por iniciativa do controlador, explica Edgard Torres dos Reis Filho, diretor de planejamento estratégico da empresa. "A grande vantagem dessa estratégia é haver métricas internas da empresa com vínculo claro com as métricas externas." Ele conta que os projetos são apurados e as estratégias traduzidas para se avaliar a geração de valor. "Sabemos o retorno exato de cada área."

Esse acompanhamento, porém, não é simples. O GVA resume em números qual será o reflexo de cada ação da companhia para o acionista. No Brasil, o método de cálculo é patenteado pela FGV Projetos, que assessora ou já assessorou empresas como Vale, Saraiva, o grupo Votorantim, CPFL Energia, Usiminas, Marcopolo, Sabesp, além da CSN. "Nós criamos condições para as empresas olharem para variáveis críticas de geração de valor para o acionista", diz Manfredini. "Toda decisão cria ou destrói valor."

Segundo o professor da FGV/EAESP, o GVA avalia a perspectiva de criação de valor ao longo dos anos e não é, portanto, uma medida de curto prazo. No entanto, questões de sustentabilidade e governança, alheias aos números, ficam fora da contagem do GVA. Além de avaliar as empresas que mais criam valor ao acionista, o investidor também deve estar atento, portanto, a outros fatores.

Para Manfredini, mais importante do que observar o retorno das empresas no ano passado é verificar a consistência da geração de valor. Avaliados os últimos dez anos, as cinco empresas que mais geraram valor ao acionista foram, pela ordem, Lojas Americanas, Gerdau Metalúrgica, CSN, Gerdau e Vale. Se considerados os últimos três anos, as primeiras são Rossi Residencial, CSN, Petrobras, Lojas Americanas e Duratex, na ordem.

Nos últimos dez anos, foi o setor que reúne siderurgia e mineração aquele a gerar mais valor aos acionistas, segundo a FGV Projetos. Em seguida, estão os setores de comércio, petróleo e petroquímico e papel e celulose.

A avaliação do ranking do GVA no ano passado, mostra a forte dispersão entre os retornos das empresas. Apesar de ter sido um ano bom para a bolsa (53% foi a média de retorno das 50 companhias do ranking do GVA, enquanto a média anual dos últimos dez anos foi de 29%), apenas as 32 primeiras empresas não-financeiras avaliadas tiveram sinal positivo, observa Manfredini (ver ao lado). As demais não criaram ou reduziram o patrimônio dos investidores. "Isso mostra que o aplicador precisa ser seletivo", diz Manfredini. "Saber que a companhia é gerida com os olhos dos acionistas faz diferença."

Segundo Reis Filho, da CSN, o método GVA já foi adotado em 80% da companhia e, até o fim do ano, sua análise fará parte de todas as decisões dos gestores. "Sem o método, fica mais arriscado ter um plano de crescimento ambicioso." Segundo ele, a empresa avalia atualmente 28 projetos que gerariam em valor presente ao ano R$ 270 milhões. "Com o GVA, é mais fácil para a direção escolher qual vai ser prioridade." Com esse método, prevê que, em até quatro anos, a mineração terá o mesmo peso de siderurgia no retorno da CSN, para depois ser novamente superada.

A Marcopolo adotou o projeto do GVA em 2001 e implementou a metodologia em todas as suas áreas ao longo dos anos (a baixa liquidez da ação da empresa impede-a de ser listada no ranking). "Vemos agora cada área como um negócio próprio, com responsabilidade de lucrar mais", diz Carlos Zignani, diretor de relações com investidores da empresa. "Alguns equipamentos não foram adquiridos pela companhia nos últimos anos, porque percebeu-se que eles não criavam valor compatível ao custo de capital." Zignani conta ainda que, para alinhar mais a gestão com o interesse do acionista, a remuneração dos diretores de toda empresa foi definida segundo o GVA, ou seja, conforme o acionista ganhar mais ao investir. Outras companhias também fazem isso.

Para o investidor saber qual companhia adota o GVA, deve acompanhar o relatório anual. Ali, as empresas que utilizam a métrica a apresentam ao final de cada período. Muitas delas abrem o retorno específico por segmento. As empresas também divulgam essas informações em seus sites.

Fonte: Valor Econômico

 

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